“A fé hoje é o grande instrumento de defesa para suportar essa

Qual o papel da religião em meio a uma pandemia com a dimensão da covid-19? O que líderes religiosos pensam destes tempos que estamos vivendo? Estas e outras respostas buscamos neste Especial Religiões, onde vamos entrevistar lideranças religiosas dos mais diferentes matizes, do espiritismo à matriz africana, da igreja luterana ao budismo.

O Brasil, de acordo com o último Censo do IBGE, feito em 2010, tem 50,7% da população brasileira declarada negra ou parda. Dentro desse universo, um pouco mais de 580 mil são praticantes de religiões de matriz africana, sendo 407 mil praticantes de umbanda, 167 mil do candomblé e 14 mil de outras religiões, entre elas o batuque, mais tradicional do Rio Grande do Sul. 

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Apesar de ser um dos estados com uma das menores populações negras do país, com 18,7% parda e apenas 3,8% preta, o RS tem a maior proporção nacional de adeptos das religiões de matriz africana, como da umbanda e do candomblé, com 1,47%, quase cinco vezes o percentual da Bahia. Só na umbanda, até 2010, eram 140.315 (34,45% total do país.) Além disso, dentre os 467 municípios gaúchos, 14 deles estão entre os que têm mais seguidores, com destaque para a cidade de Cidreira, que tem em torno de 5,9% da sua população. É também o estado com o maior número de terreiros no país, com uma estimativa de 65.000 terreiros em todo território gaúcho. 

Conforme explica a Yalorixá Iyá Vera Soares, em matéria do Sul 21, as diferenças entre batuque, candomblé e umbanda se devem as diferenças dos povos e nações trazidos como escravos para o Brasil, especialmente os Yorubá, Bantu e Ketu. Os que vieram para o Sul do Brasil, no Rio Grande do Sul, por exemplo, eram praticantes especialmente do batuque. O candomblé, por sua vez, era forte entre os povos levados para a Bahia e o Rio de Janeiro. 

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Apesar de sua relevância espiritual para o país, as religiosidades de matriz africana são historicamente perseguidas, um processo muito amplificado, principalmente no RJ e em estados do Nordeste, inclusive com ataques a terreiros. Para Iya Vera Soares essa perseguição tem um nome: racismo. “Um racismo velado, um racismo que mata, um racismo que agride. E o poder público faz vistas grossas, por que como é que o presidente de uma República, o governador, percebe que está tendo uma perseguição, tem uma casa aonde tem um altar, aonde tem, não importa o nome que se dê, um espaço de fé, aonde tem pessoas que lá se aglutinam, são agredidas, destruídas, até fogo eles colocam, e não tem uma legislação que proíba, impeça e que dê segurança pra eles”, questiona. 

Nascida em Porto Alegre, no dia 13 de agosto, a Yalorixá é a entrevistada dessa semana do especial do Brasil de Fato RS sobre as religiões. Viúva, 5 filhos, netas, netos e bisnetos, ela é coordenadora do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana. Formada técnica de enfermagem pela UFRGS, é uma militante histórica do movimento negro e da luta pela sobrevivência e resistência dos povos tradicionais, com ênfase nas Meninas e Mulheres Negras. Em outubro de 2019, pelas mão da deputada estadual Luciana Genro (PSOL) recebeu a medalha da 55ª Legislatura da Assembleia Legislativa do RS. Foi a primeira vez que a honraria de uma legislatura foi concedida a uma autoridade tradicional de matriz africana.

Abaixo a entrevista completa 

Brasil de Fato RS – A partir da experiência que você tem com sua comunidade religiosa, qual a avaliação da situação pela qual passa o país, no contexto social e político?

Iyá Vera Soares – Eu sempre digo que da janela que me coloco, fico olhando a humanidade passar. Dentro dessa humanidade, a gente está dentro de um espaço. Esse território que nós chamamos de Brasil hoje, eu considero quase moribundo. 

O nosso território está doente. E nesse período difícil, de uma doença, de uma pandemia, acelera o processo da pobreza, da fome, a falta de cuidado com a saúde. A consequência está aonde tantas vidas se perderam, por falta de estrutura para o enfrentamento dessa dificuldade. 

Eu considero que nós atravessamos um dos piores momentos, em 70 anos. Depois da legalidade, eu considero o momento um pouco parecido com aquela conjuntura, de um golpe que não deu certo. Hoje quem paga a conta de tudo é a sociedade civil, o trabalhador, os pretos, os brancos pobres, enfim, aqueles que constituem e mantém a base da pirâmide social deste país. 


“A espiritualidade hoje é necessária, por todas as perguntas que nós fizemos nesse momento de caos que estamos atravessando, ricos, pobres, brancos e pretos, homens, mulheres, jovens e crianças” / Foto: Guilherme Santos | Sul21

Costuma-se dizer que viver é um ato político, a religião também seria? 

Eu penso que gerar, nascer e viver é uma política, mais do que um ato político. Nós precisamos da terra em primeiro lugar pra viver. O espaço que nós chamamos de terra é a grande mãe, da estabilidade física e mental. 

A humanidade hoje é violentada, com raríssimas exceções. Essa violência que está colocada precisa de reparações imediatas. Até há pouco tempo nós discutíamos assim, o povo que é descendente de uma diáspora africana, uma diáspora negra, precisa de reparações. Hoje eu me atrevo a dizer que o Brasil como um todo, entre negros, brancos, pobres, trabalhadores mais velhos e crianças, precisam de reparações. 

Porque a criança olha pra frente e não consegue vislumbrar um caminho, porque falta amor, falta respeito, falta educação, falta alimento que gera a inteligência. 

Na minha matriz africana nós temos um orixá, que nós chamamos de Exu, é diferente de que as pessoas pensam, que é uma coisa que vem do diabo, endemoniada. Exu quer dizer caminho, quer dizer o caminho de toda a humanidade, o caminho da terra, o caminho do Brasil. 

O Brasil também tem um caminho a ser seguido, ele tem apenas muito pouco tempo de vida, precisa crescer, aprender a andar. E só vai aprender, como nossas crianças aprendem a andar, a comer, a se comunicar, através dos ensinamentos da educação. 

O Brasil precisa ser ressignificado, tirando esse olhar capitalista, que gera muita pobreza, gera violência, gera instabilidade na criança, no adulto, na juventude e nos mais velhos. Esse sistema civilizatório está colocado a partir do capital, a partir da exploração do trabalhador, de um salário mínimo que gera fome. Toda essa mudança, ela urge ser feita. Essa terra está moribunda e precisa sim de reparações. 

A morte, pra nós da matriz africana, da nossa visão de mundo, ela é o desaparecimento do corpo físico, e aquela espiritualidade que me acompanhou, ela se transforma numa ancestralidade.

Qual o papel da religião e da fé diante do que estamos vivendo?

Vou responder enquanto ialorixá que sou há muitos anos. Além de ser uma mãe, como todo mundo chama, mãe de santo, nós somos pessoas e fazemos a saúde nas nossas casas, trabalhamos a psicologia, trabalhamos a segurança alimentar, trabalhamos a falta de emprego, e mais do que tudo isso, fazemos muitas vezes o papel do Estado brasileiro. 

O papel do Estado está colocado dentro das casas de tradição de matriz africana. Nós entendemos que não é o terreiro [que deve cumprir o papel]. Deveria ser o espaço geográfico aonde nós teríamos que ter o nosso espaço pra plantar nossa comida, pra ter a comida livre do agrotóxico, pra ter as folhas sagradas que precisamos. 

Então o olhar da nossa casa de tradição, ou seja, do terreiro, esse povo de axé, com todos esses nomes que nos dão, tem a ver com o princípio da vida, que é a fé. Quando eu acredito em mim, quando tu acredita em ti, no teu trabalho, isso é fé. Quando eu olho pra cima e acredito que tem um Deus único, também é fé. Quando eu olho pro lado e acredito que nessa mata tem essências, tem espíritos, tem um imaterial que eu acho que falando em imaterial nós contemplamos todos os tipos de fé, esse imaterial que a gente acredita, mas que a gente não vê, é o que nos mantém de pé. 

Hoje o Brasil se sustenta neste nome, neste conceito que é a fé. A fé que me faz acreditar que quando eu dormir amanhã poderá ser um dia melhor. Que faz com que eu acredite que as águas têm uma força que pode me banhar espiritualmente. 

A fé está colocada nos elementos naturais e a fé que nos mantém com segurança e vontade de sobreviver todo esse holocausto que nós estamos passando. Eu me atrevo a dizer isso, porque da base de onde eu falo, eu enxergo o desespero das pessoas. 

Nós acolhemos no terreiro, a casa de tradição acolhe, ouve as pessoas através de práticas tradicionais da visão de mundo africana, de um modelo civilizatório um pouco diferente, aonde a cozinha é o melhor espaço da casa, porque lá está a manutenção da vida, lá está o alimento, lá está o abate sagrado pra dar de comer a quem tem fome, lá está a água sagrada que vem dentro da calha de barro. 

A fé hoje é o grande instrumento de defesa pra suportar e tentar passar por essa pandemia. A fé que nas águas mora Iemanjá, que nas areias da praia tem Oxalá, que nas matas tem Ossain, tem Odé, tem Otim, e toda a falange de orixás que de uma forma ou de outra através do caboclo, do preto velho, do Exu, enfim, promove a fé e a esperança nas pessoas. 

A fé é o que promove o respeito entre a humanidade, linkada ou conectada ou junto com os bens da natureza que ela propicia de graça, a sociedade capitalista é que cobra de quem não tem aquilo que natureza dá de graça, tipo o corte da água, da luz. 



“A fé que me faz acreditar que quando eu dormir amanhã poderá ser um dia melhor. Que faz com que eu acredite que as águas tem uma força que pode me banhar espiritualmente” / Arquivo Pessoal

Qual a importância da espiritualidade na vida das pessoas?

Um pouco da resposta está dentro dessa fala que eu fiz anteriormente. A espiritualidade se desenvolve na medida que a dor aparece. A espiritualidade que nasce contigo, comigo, com todo o ser humano. 

Nós da visão de mundo africana, da matriz africana, somos povos originários de um continente africano que tem um modelo civilizatório diferente. Antes da África ser colonizada, nós temos essa visão de mundo que nós trouxemos através dos navios negreiros, mesmo que ressignificada pela mudança das regiões. 

Essa espiritualidade não se manifesta através de uma incorporação, mas a espiritualidade que habita dentro de cada um de nós, de cada cérebro que nós chamamos de “ori”. Essa espiritualidade diz que eu posso passar a mão na cabeça de alguém, e aquela pessoa se sentir melhor, porque vai ter aquele calor, aquele afago. 

Mas a espiritualidade no nosso olhar, no olhar da matriz africana, no olhar das Iyás, dos Babás e de todos aqueles que acreditam nessa religião que pra nós não é exatamente uma religião, é uma visão de mundo africana, é uma tradição que nós trazemos mesmo que seja a partir da memória genética. 

Então eu penso que falar de espiritualidade é isso, é esse interlaçamento de todos os segmentos de fé. Acreditar que a espiritualidade é o que nos dá vida, o que nos dá fecundação, o que nos dá a força, a capacidade de saber a hora de nascer, de continuar vivo, de olhar, de enxergar, o que a medicina chama de reflexos. 

A espiritualidade hoje é necessária, por todas as perguntas que nós fizemos nesse momento de caos que estamos atravessando, ricos, pobres, brancos e pretos, homens, mulheres, jovens e crianças. 

A espiritualidade está em alta, e ela precisa estar intrínseca dentro de cada luta, de cada coisa que a gente possa e precise fazer. No meu entender enquanto Ialorixá a espiritualidade é a salvação, é ela que vai nos manter vivos. 

Ela tem que estar intrínseca na saúde pública, nos nossos gestores. A espiritualidade tem que estar presente porque nós não acreditamos no fim, nós acreditamos numa vida eterna e na continuidade. A ancestralidade é isso, é a espiritualidade eterna. 

Nesse mais de um ano de pandemia, o Brasil é o segundo país com o maior número de vítimas fatais. Apesar da morte ser algo inerente a vida humana, como sua tradição religiosa lida com ela, em especial nesse momento? 

Nós temos algumas tradições de alguns outros países que já entendem a morte como um ato da espiritualidade, que perpassa pra um outro plano, que é muito profundo, não daria pra falar dentro de uma única pergunta. 

Mas a nossa visão de mundo vê a morte como transformação, como ressignificação, como tempo necessário pra emancipar aquele espírito. 

O desaparecimento físico me faz chorar. Conforme a elucidação e a evolução espiritual que o ser humano tenha desse plano, ele já consegue enxergar a morte como uma passagem pra um outro plano melhor do que esse que é a Terra. 

Então a morte pra nós é um momento de ressignificação daquela vida, é um outro plano, ele não desaparece, ele desaparece nesta matéria, neste corpo físico, mas ele continua numa ancestralidade que vai gerar anos, séculos, milênios talvez. Então chora, porque desaparece aquele amigo, aquele filho, aquele pai, aquela mãe, desapareceu. 

Mas nós da visão de mundo africana não choramos, nós cantamos a morte porque ele passa pra outro espaço, quiçá melhor do que este plano aonde a gente precisa de roupa, precisa de dinheiro, precisa comer, precisa sofrer.



“O papel do Estado está colocado dentro das casas de tradição de matriz africana” / Arquivo Pessoal

Há lições para tirar desta pandemia?

Dá pra olhar pra dentro de nós mesmos e trabalhar um pouquinho das discriminações, pensar um pouquinho no racismo, pensar um pouquinho nos retrocessos, pensar um pouquinho que somos iguais, independente da sociedade racista, elitista.

Essa doença mostrou que é um vírus que está bailando entre nós. Nós temos o Xapanã, Omulu Obaluaê, que é o dono da terra e é também o senhor da doença, mas que também traz a cura. 

E ele chegou em 2020. Aqui no Rio Grande do Sul, em 2020 quando surgiu a pandemia, nós oferecemos esse ano a Xapanã Sapatá Omulu, senhor da doença. Coincidentemente ou não, foi o ano que deu a grande epidemia. 

Ele nos levou para refletir e entender que por maior que fosse o dinheiro, o mais rico não seria diferente do mais pobre. Ou talvez sim, mas por falta do quê? De imunidade, por falta do bom alimento, da higiene, da moradia. 

A pandemia nos ensinou que as desigualdades são provocadas por nós mesmos, pelo homem que tem muito dinheiro, pelo poder capitalista que envenena a comida. A Terra foi desrespeitada, o alimento é cheio de veneno e cheio de agrotóxicos. Porque se não fora isso, o bem alimentado não morreria na pandemia. 

É um momento de parar um pouco, pelo desrespeito ao grande patrimônio natural que é o mundo, que é a Terra, que são as águas, as matas, tudo em função do capitalismo, do olho grande, da ganância. 

O que será amanhã? Nós não sabemos. 

A mudança está no povo, em nós. Enquanto sociedade civil também temos que aprender algumas coisas. Alguns exercícios talvez possam ser feitos a partir dos ensinamentos da própria bíblia, dos ensinamentos dos nossos ancestrais na minha matriz, nos ensinamentos dos caboclos, dos indígenas que são donos dessa terra, dos nossos pretos velhos que já passaram por aqui e hoje são ancestrais. Quem sabe… A fé ainda será a válvula mestra para essa mudança.  

Como a religião pode ser um caminho para a construção de uma sociedade mais justa e um planeta mais sustentável? 

Vou te responder enquanto a minha visão de mundo que é a tradição, que não separa, é simplesmente o conceito. Eu atrevo a dizer que a única tábua de salvação deste planeta, dessa Terra em que vivemos, é a fé, seja ela católica, evangélica, pentecostal, tradicionais de matriz africana, de umbanda. Não importa o nome ou o espaço, importa que exista um grande aglutinador que é a fé, acreditar. 

Com exclusão do fanatismo, o fanatismo e a fé não se combinam. A fé é o conceito de mudança, é o instrumento que muda, que constrói. O fanatismo não, o fanatismo é doença, é desequilíbrio. 

A nossa visão de mundo diz: o respeito parte a partir de eu respeitar o meu natural, que é o meu planeta, o espaço, a Terra, o território e a territorialidade que eu ocupo. 

O meu primeiro território é o meu corpo, é o meu direito de ir e vir, que tem que estar respeitado a partir do respeito com a natureza. Não posso destruir o que me mantém vivo, o oxigênio que eu preciso pra viver, haja visto que faltou oxigênio nesta pandemia, que está colocado nas nossas matas, nos nossos verdes, que está prejudicado pela poluição da tecnologia moderna, especuladora e capitalista. 

O mundo poderia ser melhor, com mais igualdade e com menos dinheiro, com mais saúde, mais energia, mais oxigênio, mais água potável, mais água pura, menos agrotóxico, comida de verdade na mesa de cada um, com menos especulação dentro do supermercado. 

Hoje ainda não se paga pra entrar no mar, mas se paga pra chegar lá. Ainda não se paga uma taxa pra entrar nas águas, apesar que hoje nós já temos a privatização das águas. E querem privatizar e fazer portões, por aqui passa esse, passa aquele, passa aquele outro.

Por isso que hoje a humanidade, a partir da fé, de acreditar que esse patrimônio, que esse ambiente como um todo é nosso, que nós somos parte dele, que somos a parte mais ínfima do que é o ambiente, é nosso e precisa ser preservado. 

O fanatismo e a fé não se combinam. A fé é o conceito de mudança, é o instrumento que muda, que constrói. O fanatismo não, o fanatismo é doença, é desequilíbrio. 



“Existe ainda no século XXI, essas pessoas que usam o terreiro, usam a força da tradição a seu bel prazer” / Arquivo Pessoal

As religiosidades de matriz africana são historicamente perseguidas no Brasil. Nos últimos anos, vemos esse processo muito amplificado, principalmente no RJ e em estados do Nordeste, inclusive com ataques a terreiros. Como tem sido esse processo no Sul? 

Da mesma forma. Ainda não está muito elaborado publicamente os ataques que são feitos. 

Todo esse olhar, ele só se dá a partir da chegada dos povos africanos pra serem escravizados nesta terra que depois foi chamada de Brasil. Aqui tinham os indígenas, que já tinham as suas práticas de tradição, e se juntaram com as práticas tradicionais da matriz africana, e se mantiveram até hoje no século XXI. 

Esse processo escravagista é o início da perseguição hoje fomentado por outros caminhos de fé. Ou seja, de enganar a fé das pessoas através de religiões que são criadas, que não têm um histórico, que não tem história da humanidade como tem a matriz africana. Esse poder gera perseguição, talvez por medo, pela capacidade, pela força, pela estrutura física, por toda essa força de fé que o povo preto traz. 

Essa perseguição tem um nome, chama-se racismo, o poder público faz vistas grossas. Como é que o presidente da República ou governador percebe que está tendo uma perseguição, aonde tem um altar, um espaço de fé, pessoas que lá se aglutinam sendo agredidas, destruídas, até com fogo, e não tem uma legislação que proíba, impeça e que dê segurança? 

Só tem uma forma de entender: o racismo que é velado e se revela na perseguição e destruição. Isso temos hoje no Nordeste, em outros estados, mas também aqui no RS, talvez com métodos diferenciados. 

Vou citar um exemplo bem rápido. Há muito tempo, desde que o batuque é batuque e quando se faz as práticas de um passo que a gente chama de “passeio”. No fim dessa prática, dessa tradição, nós fazemos o passeio no Mercado Público, que é um espaço público, e por várias vezes nós somos impedidos de entrar. 

Porque trazemos a roupa tradicional que nos revela enquanto tradicionais de matriz africana, que é um torso na cabeça, um colar de contas. Por várias gestões da Prefeitura de Porto Alegre nós fomos vetados a entrar ali. Claro que houve reação, houve vários movimentos, mas até hoje a gente briga por essa legitimidade e transparência, vários processos foram feitos. 

Outra questão, nós temos, por exemplo, Oxum, a grande mãe, a senhora das águas que mantém a vida. Então nós temos como hábito saldar as águas. Tem várias políticas e perseguições que diz que nós sujamos a beira da praia, do rio. Mas ninguém fala nos navios, nos barcos, nos filhinhos de papai, na grande população que se aglutina na beira e deixa lá as latas de refrigerante, cerveja. 

Agora, a canjica que nós botamos na beira é o grande debate, quando nós sabemos que os peixes vem ali, comem e não morrem. Eles morrem pelos óleos dos petroleiros e por outras questões venenosas que são largadas, o próprio agrotóxico que passa no aviãozinho, que cai na água e envenena os nossos peixes. 

Então essa perseguição está embasada na grande questão da desigualdade social e do racismo, e no RS o racismo é velado. Eu quero perguntar a essa elite branca aonde eles escondem o seu racismo? Porque na hora de pedir o voto eles todos entram nas nossas casas de tradição, tiram o sapatinho na porta, lavam a sua mão no “mierol” (a água das plantas, das folhas sagradas). 

O rico gosta de disfarçar e deixa seu carro lá na esquina, e vem a pé pra não ser percebida a placa do carro, na frente, na porta de um terreiro. Existe ainda no século XXI, essas pessoas que usam o terreiro, usam a força da tradição a seu bel prazer.



“Somos sim o estado onde o racismo é velado, mais cruel por isso, disfarçado, porém é cotidiano, institucional” / Foto: Marcelo Ferreira

O Rio Grande do Sul é o segundo estado mais branco do país, porém, contraditoriamente, é o estado com maior número de terreiros do Brasil.  Ao que a senhora atribui isso?

Os nossos primeiros navios negreiros chegaram no estado do RS. Diferente do senso comum que fala que tem poucos negros no estado, nós temos muitos negros. E a resistência foi muito forte e até hoje esse racismo que não é transparente, que é velado, ele exige de todos nós uma unidade. Aonde nesse momento vimos que somos muitos. No entanto, o lugar onde preserva, onde acolhe todas as discriminações, todos os setores que são discriminados, ainda é a Casa de Tradição, o terreiro, seja da umbanda, do Exu, ou das casas tradicionais, que trazem a tradição da visão de mundo africana, que são as Casas de Matriz Africana. E lá está mantida a resistência a partir da fala, através dos cantos, das rezas, da forma de nos conectar e interagir com os nossos antepassados, nossos ancestrais. 

Fica inclusive uma demanda de ter um censo de fato, concreto, feito com qualidade e respeito para dizer quantos somos. Existe sim, um olhar pela imensidão, quando se aglutina, se fizermos num grosso olhar, num olhar simples de passar um final de semana pelas casas de tradição, o número de pessoas que estão compondo aquelas rodas de conversa, de tradição. São muitas pessoas. 

Se somarmos, por exemplo, Alvorada, com mais de cinco, seis mil terreiros, Viamão com cinco, seis mil terreiros, Porto Alegre com muito mais que isso, talvez uns mil terreiros. E nos terreiros têm o acolhimento, que trabalha a fome, que diminui a miséria, que dá o carinho, o afago. E que faz o papel do público que na maioria das vezes é ausente no meio dessa população.

Ainda no século XXI o lugar de acolhimento para esse povo, considerado diferente e excluído de uma sociedade branca, racista e elitista é a Casa de Tradição de Matriz Africana. 

Como consequência desta conjuntura, existe o indicativo que o RS abarca entre os cidadãos das suas cidades a maior população que se auto indica de Matriz Africana. A partir da compreensão das Comunidades de Terreiros de Umbanda, kibandeiros e as Casas mantenedoras das Tradições de Matriz Africanas, o Batuque, somos muitos. Considerando que só um Censo qualificado e fundamentado poderá dizer quantos somos.

 

 

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko

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