Cobradora defende Carris pública e cobra auditoria séria

Essa semana funcionários da empresa de transporte Público de Porto Alegre, a Companhia Carris Porto-Alegrense, entraram em estado de greve contra a desestatização da empresa, o fim da função de cobradores e o fim das isenções encaminhadas pelo prefeito Sebastião Melo (PMDB). Em entrevista à Rádio Gaúcha, o prefeito afirmou estar convencido de que a desestatização vai melhorar o serviço e baixar o preço da passagem. 

Em relação ao projeto que envolve os cobradores, Melo disse que a medida, se aprovada, entrará em vigor a partir de 2026. Segundo ele, a maioria dos profissionais já estará aposentada, e os que ainda não estiverem receberão da prefeitura cursos e auxílio para a reinserção no mercado de trabalho. Aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, no dia 18 de agosto, a proposta de desestatização segue para votação em plenário, o pode acontecer nas próximas sessões do legislativo municipal.

O movimento dos trabalhadores, em reunião nesta semana com Melo, pediu prazo de seis meses pra apresentar um plano de metas e propostas a fim de mostrar que a Carris é viável e que pode se manter sem necessidade de tantos aportes da prefeitura.

Cobradora e uma das representantes dos funcionários da Carris, Rosangela Pires Machado, conta que, nas três assembleias, realizadas nesta sexta-feira (27), os trabalhadores decidiram  que se o prefeito não aceitar o acordo de dar mais  prazo pra mostrar a viabilidade da carris, ou retirar o projeto, os funcionários entrarão em  greve a partir da próxima quinta-feira (02). 

Com 1.991 funcionários e quase 150 anos de história, a Carris é a única empresa pública de transporte coletivo atuando em uma capital brasileira. Criada via decreto pelo então imperador Dom Pedro II, em 19 de junho de 1872, a empresa atende atualmente, em média, 150 mil passageiros por dia, respondendo por 22% de todo o sistema operando na cidade.

O restante das linhas da Capital está sob responsabilidade de empresas privadas, que atuam sob quatro consórcios, representadas pela Associação dos Transportadores de Passageiros de Porto Alegre (ATP). Em média 500 mil pessoas usam o sistema público de transporte por dia em Porto Alegre.

Na entrevista especial deste sábado, o Brasil de Fato RS conversou com a Rosangela sobre a atual situação da Carris. Moradora da Restinga, periferia da Capital, ela tem 49 anos e em julho deste ano completou 17 anos como cobradora de ônibus da empresa. Separada, é mãe de um casal. Acorda diariamente às 4h30 da manhã. Antes da pandemia, sua rotina de trabalho era de até 12 horas, iniciando às 7h10 da manhã e encerrando às 19h30. 

Com a pandemia, ela conta que está trabalhando 15 horas e 30 minutos diariamente, chegando em casa às nove da noite. Além do trabalho, tem a dupla e tripla jornada com os afazeres doméstico, a ajuda para a filha com os temas escolares e a defesa do serviço público.

“Faço parte da comissão de funcionários em defesa da Carris pública. Fui delegada sindical da Carris e vice-presidente da comissão de funcionários. Tenho uma rotina bem puxada com tripla função”, destacou em uma matéria recente do BdFRS sobre trabalhadores invisíveis. 

Para a cobradora, não faz sentido vender, fechar, liquidar, privatizar ou desestatizar uma companhia que já recebeu por duas vezes o prêmio como a melhor empresa de transporte coletivo do Brasil.

“A Carris sempre foi a melhor do Brasil. Ela passou por alguns problemas de gestão nos últimos 10 anos, devido a cargos partidários. Foram muitos desvios de dinheiro, conforme se constatou nas reportagens feitas ontem, onde um ex-cargo comissionado, no governo Fortunati/Melo, fez um desvio de mais de R$ 1 milhão e 700 mil em nome de uma criança morta. Cobrou indenizações infundadas, onde o Ministério Público apurou que boa parte desse dinheiro foi depositado em campanhas partidárias do MDB”, aponta. 


“Não é tirando o cobrador, a Carris, as isenções, que vai se resolver o sistema do transporte de Porto Alegre” / Arquivo Pessoal

Abaixo a entrevista completa: 

Brasil de Fato RS – A Carris completa 150 anos de atividades em 2022, sendo a única empresa pública de transporte a atuar em uma capital brasileira. Esse ano, sob o governo Melo, ela corre risco de privatização e até mesmo extinção. Gostaria de começar nossa entrevista falando da importância da empresa para a Capital.

Rosangela Pires Machado – Eu tenho 17 anos como cobradora. Eu ingressei na Companhia Carris no ano de 2004, na administração do Partido dos Trabalhadores, PT. Nesse período a Carris era uma das melhores empresas do Brasil, tínhamos cursos periodicamente, tínhamos o melhor atendimento, ganhávamos participação nos lucros da empresa, pois a empresa sempre deu lucro. Então eu acompanhei bastante essa trajetória da Companhia Carris. 

É muito triste pra mim enquanto funcionária ver que um prefeito que mal assumiu, que nem gaúcho é, não é da cidade de Porto Alegre, querer se desfazer de uma empresa de quase 150 anos. Uma empresa que foi dada como presente nos 100 anos da cidade de Porto Alegre pelo imperador Dom Pedro II. 

A empresa Carris é motivo de muito orgulho pra cidade, pois é a única Capital que tem uma empresa pública de transporte, e o prefeito diz, nas suas entrevistas, que uma prefeitura não pode ter uma empresa pública. É o contrário senhor prefeito, é dever da prefeitura, é dever do município oferecer um transporte de qualidade para a população, e o senhor não quer investir na empresa pública, aonde o dinheiro é revertido em qualidade pra população. Mas quer investir dinheiro em empresas privadas, onde o lucro vai todo para o bolso do empresário, que não está preocupado em atender à população, pois eles querem ganhar e atender onde estão tendo lucro. 

Basta ver que ano de 2020, durante o pico alto da pandemia, eles (privados) deixaram 23 bairros desassistidos. Por que? Porque eles simplesmente não estavam tendo lucro. Então é esse tipo de transporte que vai melhorar, que vai ser bom pra Porto Alegre? Não. O transporte de verdade é um transporte público, que atenda às necessidades da população, de todas as classes. 

BdFRS – O prefeito Sebastião Melo recentemente disse: “Essa empresa não tem condições de continuar”, ao defender desestatização da Carris. Segundo o prefeito, a desestatização vai melhorar o serviço e baixar o preço da passagem. No teu ponto de vista, a privatização vai ajudar em algo a contornar a crise do transporte público, que cada vez tem mais custos e menos passageiros, ou o caminho é outro? 

Rosangela – O prefeito de Porto Alegre alega que o transporte vai ficar mais eficiente e que o custo da passagem vai ser reduzido com a privatização da Carris. Isso é uma tremenda falácia. É impossível reduzir o valor da tarifa. Vejam bem, em nenhum momento na história – aí podem percorrer pelo menos os últimos 17 anos, tempo em que eu trabalho no setor rodoviário – nunca ouvi ou ouviram a Carris encaminhando argumentos ou reclamações, bem como pedidos de aumento de tarifa. Isso sempre foi feito pela Associação dos Transportadores de Passageiros de Porto Alegre (ATP), que não representa a Companhia Carris Porto-Alegrense, pois ela não tem acento em seu conselho, não faz parte da sua associação e nem tão pouco é considerada.

Quando a ATP encaminha o pedido de reajuste tarifário, a Carris não é ouvida e não se pronuncia ou contribui com os dados na argumentação para pedido do aumento da tarifa. Sempre foi e sempre será atribuição das empresas particulares e da ATP fazer este pedido. Inclusive tem legislação municipal que disciplina esse assunto, e lá consta a ATP como legítima para tal. 

Ainda justifico a exclusão da Carris, nesse processo, pelo fato dela ter o melhor IPK (índice de passageiros por quilômetro) da cidade, o que é o verdadeiro regulador da tarifa e é o que mantém o cálculo para a tarifa. Quanto mais alto for o IPK rodado, menor a tarifa. Se fosse considerado o IPK da Companhia Carris Porto-Alegrense, a nossa tarifa com certeza seria menor do que o valor que ela é. 

Então, os argumentos do prefeito são um “primeiro de abril” clássico. É o maior primeiro de abril do ano de 2021, é uma fake news digna de processo junto ao Supremo Tribunal Federal. Mas podemos apresentar um desafio aqui ao prefeito: que ele apresente qual seria o valor da tarifa, caso a Carris fosse privatizada, se ele alega a redução do custo tarifário que apresente.

Na verdade, a Carris ser privatizada é o sonho de consumo e principal desejo dos empresários de ônibus de Porto Alegre. Querem tomar conta da companhia Carris, tomar conta das suas linhas, será por que ela é deficitária? Ora, se assim fosse, o prefeito não encontraria comprador, e as empresas não estariam trilhando nos corredores obscuros da prefeitura para a privatização da Companhia Carris Porto-Alegrense. 



A cidade de Porto Alegre é a única capital do país que tem uma empresa pública de transporte ativa no país / Divulgação Susepe

BdFRS – Outro ponto no discurso do prefeito é que a empresa tem excesso de funcionários. Como tu vês esse argumento? 

Rosangela – A Carris possui um número de funcionários compatível com o tamanho da sua operação e da sua prestação de serviço. O que a Carris tem em excesso, sim, são CCs (cargos em comissão), mas não são funcionários, são cargos políticos com altos salários. Então elimina-se os cargos políticos, e veremos o quanto a Carris é produtiva e eficiente, e digna de continuar prestando este maravilhoso serviço ao povo porto-alegrense.

BdFRS – A Carris já foi uma empresa privada administrada por uma multinacional norte-americana, a Bond & Share – a mesma multi que operava a distribuição de energia elétrica e que o Brizola encampou depois. Em 1953, o mau serviço da Bond & Share levou o prefeito Ildo Meneghetti, de direita, a encampar a Carris, tornando-a pública. Tu achas que voltando a ser privada, a Carris irá melhorar?

Rosangela – Quanto à questão se a Carris vai ser mais eficiente ou não ao se tornar privada, temos a dizer o seguinte: basta ver e comparar o serviço prestado pelas empresas privadas e o serviço prestado pela Companhia Carris Porto-Alegrense. Nós precisamos é estatizar muito mais o transporte de Porto Alegre, para que ele seja mais eficiente, para que ele seja mais barato, para que o povo de Porto Alegre tenha um serviço de qualidade, um serviço público de qualidade no transporte coletivo. 

Desestatizar a Companhia Carris Porto-Alegrense é simplesmente sucatear o serviço do transporte de Porto Alegre. A Companhia Carris precisa e deve continuar pública. O que o prefeito deveria fazer, ao invés de encaminhar um projeto de desestatizar a Carris, era encaminhar à Câmara de Vereadores um projeto de estatização do serviço de transporte de Porto Alegre.

BdFRS – Faz sentido, na sua avaliação, vender ou fechar uma empresa que ganhou duas vezes o prêmio de “Melhor empresa de transporte coletivo do Brasil”? Falta investimento na Carris? Onde as últimas gestões erraram com a Carris?

Rosangela – Pra mim não faz sentido vender, fechar, liquidar, privatizar, desestatizar uma companhia que já recebeu por duas vezes o prêmio como a melhor empresa de transporte coletivo do Brasil. A Carris sempre foi a melhor do Brasil. 

Ela passou por alguns problemas de gestão nos últimos 10 anos, devido a cargos partidários. Foram muitos desvios de dinheiro, conforme se constatou nas reportagens feitas ontem, onde um ex-cargo comissionado, no governo Fortunati/Melo, fez um desvio de mais de R$ 1 milhão e 700 mil em nome de uma criança morta. Cobrou indenizações infundadas, onde o Ministério Público apurou que boa parte desse dinheiro foi depositado em campanhas partidárias do MDB.

É impossível uma empresa pública se manter com funcionários colocados lá dentro por partidos políticos e que começam a desviar dinheiro. Esse é um dinheiro do povo, o povo é que está sendo lesado, e o povo que tem que cobrar isso da prefeitura. Então desestatizar, entregar a Carris é como uma queima de arquivo.



“Muitas vezes o cobrador inibe o assédio dento do ônibus” / Arquivo Pessoal

BdFRS – Tu tens quase 17 anos como cobradora. Gostaria que nos falasse um pouco dessa tua trajetória. E também sobre o projeto de extinção dos cobradores, uma das motivações da greve.

Rosangela – Quanto à questão do projeto que prevê a retirada de cobradores e de isenções, que está englobado nesse pacote pós-desestatização da Carris, que são dois projetos, um impacta no outro. A retirada de cobradores, no meu ponto de vista, além de deixar muitos desempregados, é totalmente bandida. É um projeto maligno, porque são mais de três mil famílias que irão ficar sem emprego. 

O prefeito em suas falas diz que vai dar qualificação, cursos, mas isso ele também falou quando tirou os carrinheiros, carroceiros, alguns foram qualificados, mas não conseguiram colocação para trabalhar. Milhares se qualificaram, mas uma dezena só conseguiu emprego. E eu vou me qualificar e trabalhar aonde? Vou me qualificar com mecânica, e trabalhar aonde? Eu vou ter que desempregar alguém para poder continuar trabalhando? Isso é um absurdo. 

Outra coisa, o cobrador não é só um cobrador de passagem, ele está ali para orientar o motorista, os passageiros, o deficiente físico, auditivo, visual. Muitas vezes ele inibe o assédio dentro do ônibus. O cobrador é muito importante desempenhando a sua função, está comprovado que em Viamão, onde em algumas linhas já tiraram o cobrador, o número de acidentes aumentou, o tempo de viagem ficou muito longo, pois o motorista tem que fazer tudo sozinho. Motoristas estão adoecendo, pois a pressão psicológica é muito grande. 

É um projeto totalmente desnecessário, maligno, contra toda a população de Porto Alegre, pois o desemprego que já está grande vai aumentar ainda mais com a retirada dos cobradores. E a retirada de isenções também é um projeto que precisa ser muito debatido, pois muitas isenções, passe estudantil, são para pessoas que não têm dinheiro, não têm como pagar uma passagem, onde estudam em um colégio que é longe.

São coisas absurdas que não vão melhorar em nada a qualidade do transporte. O que precisa ser revisto é todo o sistema de transporte. Precisa ser feita uma auditoria séria, minuciosa, abrir a caixa preta do transporte e comprovar que o problema não está na Carris, o problema não está nas isenções e muito menos na retirada de cobradores. Não é tirando o cobrador, a Carris ou as isenções que vai se resolver o sistema do transporte de Porto Alegre. 

*Com a colaboração de Marcelo Ferreira


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Edição: Marcelo Ferreira

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