“Um projeto que mata quase 600 mil pessoas, não dá

Qual o papel da religião em meio a uma pandemia com a dimensão da covid-19? O que líderes religiosos pensam destes tempos que estamos vivendo? Estas e outras respostas buscamos neste Especial Religiões, onde vamos entrevistar lideranças religiosas dos mais diferentes matizes, do espiritismo à matriz africana, da igreja luterana ao budismo.

Apesar da ascensão e crescimento das igrejas evangélicas, o Brasil ainda é um país em sua maioria católica. Segundo o último censo IBGE, realizado em 2010, 64,6% dos brasileiros se declaravam católicos.

No momento em que lideranças católicas no Brasil sofrem ameaças, são perseguidas e acusadas de usar a fé politicamente, o Brasil de Fato Rio Grande do Sul conversou com o padre Edson André Cunha Thomassim sobre a atual situação do país e o papel da religião nesse contexto.

Padre Edinho, como é mais conhecido, é agente de Pastoral, educador popular e teatral. Atua na Articulação regional das Pastorais Sociais do Rio Grande do Sul pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Pároco da Rede de Comunidades São João Batista de São Leopoldo, é assessor das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no estado e Pastoral da Juventude. Membro da Pastoral Carcerária e da Pastoral Operária. É também presidente da Associação de Promoção Humana e Cidadania Juvenil Trilha Cidadã. Além de coordenador do Centro de Espiritualidade Padre Arturo – Cepa em São Leopoldo.

Uma das lideranças católicas a sofrer ataques recentemente, foi o padre Júlio Lancelotti. No Rio Grande do Sul, após um desabafo durante uma missa, o padre Valter Girelli também sofreu perseguição por criticar o presidente Jair Bolsonaro.

Para o padre Edinho as perseguições revelam, num primeiro momento, o quanto este projeto de morte, capitaneado pelo fanatismo fundamentalista do bolsonarismo, é perverso. “Ele não admite o princípio básico do contraditório – o que é parte de um ambiente democrático”, destaca. Confira a entrevista completa.

Brasil de Fato RS – A partir da experiência que você tem com sua comunidade religiosa, qual a avaliação da situação pela qual passa o país, no contexto social e político?

Padre Edinho – Uma das realidades que mais nos angustia é a carestia e a fome. Não ter alimento é algo muito grave para uma família na periferia. E com a fome não se debate. Temos que agir. Mas também o custo de vida está difícil para a população pobre. O alto custo das necessidades básicas faz com que as pessoas se sintam menos dispostas a participar de espaços coletivos.

Mas outro aspecto que é gritante é o cenário da intolerância e da comunicação falsa. Vemos no meio das pessoas dois movimentos intolerantes. O primeiro é a rejeição da opinião contrária. O bolsonarismo e o conservadorismo, em muitos locais, dificultam a vivência comunitária e poluem a convivência social. Isso somado à falsa afirmação de argumentos, alimentados pelas fake news que são espalhadas em grupos de whatsApp.

Estes dois aspectos estão presentes nas comunidades religiosas que enfrentam um forte enfraquecimento numérico, cansaço de lideranças e uma disputa desleal com as novas narrativas religiosas alimentadas pelo teologia da Prosperidade.

BdFRS – Costuma-se dizer que viver é um ato político, a religião também seria?

Padre Edinho – Sim, a religião é um ato político. Ela conflui um grupo de pessoas num mesmo modo de compreender o mundo, as relações interpessoais, o destino das pessoas e como se posicionar em diversas questões da relação humana. Implica num imperativo ético, uma visão do mundo. Além de capacidade de aglutinar pessoas que possam influenciar em determinadas disputas na sociedade.


Padre Edinho integra a Pastoral Carcerária e a Pastoral Operária, além de presidir a Associação de Promoção Humana e Cidadania Juvenil Trilha Cidadã / Arquivo pessoal

BdFRS – Qual o papel da religião e da fé diante do que estamos vivendo?

Padre Edinho – A fé é uma dimensão da consciência humana que se dispõe a transcender o modo de vida como se apresenta a cada um de nós. É um salto sobre as incertezas que o mundo manifesta ou permite que surja no tempo e na história, alimenta as culturas constitutivas dos povos. 

A religião é a materialização do ato de crer dentro da experiência cultural e das narrativas culturais. Por isso, o ato de ter fé é uma oportunidade de manifestar o melhor ou, lamentavelmente, o pior de um sujeito. Da abertura ao diferente ou fundamentalismo intolerante e aniquilador de oposição.

Neste sentido, a fé pode ser aliada à construção de uma sociedade melhor. Na medida do possível, alimenta os valores éticos e morais da solidariedade, da justiça e da verdade. Contribui para o combate à corrupção e aos desvalores da ganância humana. Dentro deste aspecto, destacamos que a vivência religiosa quando equilibrada e ponderada, para além dos dogmatismos e exclusivismos de crença, colabora para a fraternidade e para a superação das injustiças presentes no mundo.

A religião é a materialização do ato de crer dentro da experiência cultural e das narrativas culturais

BdFRS – Qual a importância da espiritualidade na vida das pessoas?

Padre Edinho – A espiritualidade é uma dimensão que compõe o ser humano. Não se trata da Religião, ou de discursos teológicos, mas da dimensão do espírito humano que dá ânimo às pessoas para construírem projeto e sonhos, a assumirem causas pelo qual lutar.

O fanatismo religioso não provém da espiritualidade, mas da manipulação cultural que se faz também por aspectos que poderiam guiar as pessoas por um caminho espiritual.

Geralmente estas pessoas acabam enfraquecendo o espírito porque estão envolvidas em dogmas que as alienam da realidade. E a espiritualidade, como dimensão humana, é complementar ao ser humano e não fragmento. Pois quem entendeu o que é espiritualidade tem consciência do equilíbrio do todo de uma pessoa.

BdFRS – Nesse mais de um ano de pandemia, o Brasil é o segundo país com o maior número de vítimas fatais. Apesar da morte ser algo inerente à vida, como sua tradição religiosa lida com ela, em especial nesse momento? Há lições para tirar desta pandemia?

Padre Edinho – A morte é uma dimensão da existência humana que faz parte de nossa espiritualidade como abertura para a transcendência. O luto é uma forma de celebrar a passagem de uma vida que, na fé cristã, aguarda a realização do tempo de Deus para a eternidade. Por isso, parte do projeto de Deus.

Mas, quando temos um projeto que mata quase 600 mil pessoas nos deparamos com um cenário que “ceifa” as vidas que poderiam ter sido poupadas pelas inúmeras ações de prevenção e de imunização da população. Costumo dizer que são vidas martirizadas por este projeto genocida. E neste caso não dá para dizer “era a sua hora” ou “Deus quis assim”. Não! Deus, na perspectiva cristã, chora e sofre com a triste realidade que vivemos… Na fé manifesta um Deus de relação e conexão direta com a vida do povo.

Nós, religiosos, temos uma certeza, há muito trabalho pela frente para consolar e acolher a dor das pessoas que perderam seus entes. A Pastoral da Escuta e do Acolhimento deve ser uma das principais estratégias com as pessoas que vivem a dor de perder entes, cujas vidas ainda tinham sonhos e desejos.

Este momento também nos mobiliza para fortalecer mais nosso compromisso com a defesa da vida e com a dignidade, inclusive na hora de morrer.

Nós, religiosos, temos uma certeza, há muito trabalho pela frente para consolar e acolher a dor das pessoas que perderam seus entes

BdFRS – Como a religião pode ser um caminho para a construção de uma sociedade mais justa e um planeta mais sustentável?

Padre Edinho – Com Papa Francisco estes temas são mais claros e diretos, como nunca se compreendeu na História. A luta pela Justiça é a luta de quem tem intimidade com Deus. Não tem como ser um crente no Deus de Jesus Cristo e ser conivente com a realidade de morte. Ou então não entendeu nada do mistério da Cruz.

Quando o Papa nos diz que a sociedade não vive duas crises, a social e a ecológica, mas uma única e complexa crise de projeto de Humanidade, ele nos convoca a sermos corresponsáveis pela defesa de uma Ecologia Integral em favor de uma Casa Comum. Não como mera opinião, mas como Doutrina Social a ser pregada, assimilada e assumida por todos os fiéis e as pessoas de boa vontade.

Assim como no documento sobre a Fraternidade Humana ele nos convida a refletirmos para além da polarização moderna entre liberdade e igualdade. Ele recorda que a Fraternidade Humana é a interfase de um convivência numa mesma casa que é capaz de fortalecer os esforços de diálogo e de paz, mas com justiça social e ambiental.

BdFRS – Como tu vês as perseguições a alguns padres e líderes religiosos que criticam o governo Bolsonaro?

Padre Edinho – Este tema revela num primeiro momento o quanto este projeto de morte, capitaneado pelo fanatismo fundamentalista do bolsonarismo, é perverso, porque não admite o princípio básico do contraditório – o que é parte de um ambiente democrático.

Mas no caso que estamos vivenciando não há espaço para esta divergência. Não é de hoje a polarização no campo das Igrejas, com o fundamentalismo pentecostal e a sua teologia da Prosperidade.

O nosso desafio é proteger a vida de nossas lideranças religiosas para que não tenham suas vidas ameaçadas. E isto nos preocupa muito, pois não vamos abandonar a nossa tarefa de estarmos ao lado de quem Cristo esteve, dos Pobres. E por isso precisamos estar unidos e fortalecidos. E ter a consciência que ninguém procura ser “mártir”. Porque o martírio é consequência da fidelidade à causa da Vida.

Não é de hoje a polarização no campo das Igrejas, com o fundamentalismo pentecostal e a sua teologia da Prosperidade

BdFRS – O senhor na resposta de abertura falou da fome. Nas perguntas subsequentes falamos da importância da fé, espiritualidade e culminamos nas perseguições. Especificamente em relação às católicas temos os casos de Dom Vicente, Frei Lorrane, Padre Júlio, Frei José Hélio, Padre Lino, Padre Leonardo, que levam às pessoas mais carentes alimentos, cobertores, uma palavra de consolo, uma corrente muito próxima à Teologia da Libertação. Por essa postura foram chamados de satanistas, comunistas, esquerdopatas e foram acusados de fazer uso político da fé. Como o senhor vê essa situação?

Padre Edinho – Sobre a perseguição de lideranças religiosas, clérigos, por exemplo, que tu citaste, além de lideranças leigas também perseguidas em vários cenários, algumas mais conhecidas outras menos, eu acho que existem dois sentimentos.

Primeiro o sentimento de que a gente precisa criar, permanentemente, a rede de apoio, solidariedade a esses parceiros, irmãos, irmãs nossas, que em nome da profecia, da coerência e do testemunho, sofrem essas ameaças e xingamentos. Não que o ser contrariado, combatido, ele seja um problema da nossa parte, até porque a radicalidade do segmento gera essas consequências. Mas como é importante nós pensarmos forças que dão suporte e sustentação a esses irmãos e irmãs nossas que estão na linha de batalha à frente de tudo isso.

Por outro lado, o segundo aspecto é como a gente desconstrói o poder de incidência desses grupos nas ações de nossa base. Então, quando a gente combate as fake news, quando recorda outras dimensões importantes, trabalha com outros elementos para poder desconstituir discursos falaciosos. Não é fácil, mas é uma maneira da gente pautar, lidar e organizar com essa dimensão.

Então eu diria essas duas questões como fundamentais para clarearmos a incidência, criar a rede de apoio e trabalhar permanentemente com as nossas bases para retirar esses movimentos de combate a esses nossos parceiros, irmãos, irmãs na luta pelos direitos humanos, pela vida do nosso povo.

Eu lembro até que nós trabalhamos no grupo dos padres da caminhada, com o padre Edson, foi o primeiro ali que fez uma crítica ao Bolsonaro e foi muito perseguido em São Paulo. Nós trabalhamos justamente com essa ideia de solidariedade. Fizemos uma carta de apoio. É importante que companheiros e companheiras nossas não se sintam sozinhos, mas que a causa que eles defendem também são as nossas causas e que nós estamos juntos. E se eles estão sendo perseguidos, nós também estamos sendo perseguidos por causa das mesmas.

BdFRS – Como se portar diante do fundamentalismo religioso que advém de certas camadas da sociedade?

Padre Edinho – O problema do fundamentalismo é quando, para além do religioso, comportamental, ele se torna uma postura política de intervenção na sociedade. Tanto que a gente vai ver que muitos dos líderes desses fundamentalismos, os porta-vozes desses fundamentalistas são pessoas cuja prática ética, a honestidade, a transparência, a capacidade de entrega por uma causa é muito relativa. Geralmente são grandes líderes religiosos, que arrecadam muito valor, estão dentro de partidos extremamente fisiológicos, interesseiros, para fazer esse movimento.

Agora nas comunidades o nosso desafio é permanentemente ajudar as pessoas a se desamarrarem, desenvencilharem das estratégias fundamentalistas que circulam. Um exemplo muito simples aconteceu aqui em Grupunzá, minha comunidade, com a transmissão de notícias falsas sobre o vírus, a vacina, principalmente nos grupos da terceira idade. Nós buscamos desmascarar, desconstruir. Dialogamos com as novas gerações, falamos sobre comportamentos, a identidade das pessoas, a percepção da realidade política.

O problema do fundamentalismo é quando, para além do religioso, comportamental, ele se torna uma postura política de intervenção na sociedade

E um elemento que contribui a nosso favor é a tragédia da realidade, a concretude da vida. As pessoas estão com mais fome, estão mais fragilizadas, socialmente mais vulneráveis. Esse é o cenário mais de base. Agora existe também o cenário de fundamentalismo estratégico que são esses grupos ultraconservadores. Por exemplo, no mundo católico existem dezenas desses grupos espalhados. Não são numericamente grandes, mas são economicamente rentáveis. Eles se articulam e investem muito nas mídias para polarizar, problematizar e combater, inclusive, são parte desses perseguidores de outras pessoas.

Esse fundamentalismo estrutural, que tem uma ideologia bem pensada, articulada e que acaba interferindo nas bases, ele precisa ser combatido através das denúncias, do contraponto, da criação de mídias alternativas. E aí a gente precisa amadurecer como setores eclesiais mais progressistas o uso da comunicação, porque nós somos muito frágeis nessa relação. Com a pandemia a gente vê essa necessidade porque perdemos as pernas, as mãos, os ouvidos, os olhos, a capacidade de conexão que nós tínhamos nesse trabalho incidente e insistente que era nosso trabalho de base. Acho que esse é o nosso grande desafio também. 



“A ameaça velada é sempre o escanteamento nos espaços religiosos que vivemos!” / Arquivo pessoal

BdFRS – Já recebestes alguma ameaça ou afronta por algum posicionamento?

Padre Edinho – A gente tem uma certa ameaça velada e a revelada. A ameaça velada é sempre o escanteamento nos espaços religiosos que vivemos. Somos menos convidado a participar de determinadas ações eclesiais, não participamos dos fóruns decisórios das estruturas eclesiásticas e eclesiais locais porque na nossa linha de pensamento acaba não corroborando. Embora defendamos o princípio democrático, do respeito à diversidade, essas realidades também possibilitam as pessoas nos colocarem em espaços de referências na parte operativa da igreja. O que não é problema se não temos sede de poder, só o que nos frustra é que a gente percebe que o rumo da igreja poderia ser diferente se nós colaborássemos a pensar de outra forma, como nos pede o Papa Francisco. Mas no meio do povo isso não tem tanto peso.

Já a ameaça revelada foi no ano passado quando fizemos a carta de apoio aos 125 bispos que escreveram um manifesto com sua visão da realidade brasileira e das ameaças do governo Bolsonaro e todos os riscos que estávamos vivendo. Houve uma manifestação de pessoas aqui do Vale dos Sinos questionando os padres dessa região. Foi a única vez que de fato eu recebi uma ameaça explícita, que saiu na imprensa e nas redes sociais colocaram os nossos nomes, cerca de 10/12 padres aqui da região. Não recebemos nenhuma retaliação direta. Apenas o que acontece, para além disso, é uma ou outra liderança tenta nos provocar nas redes sociais, contrapor, e defender suas visões mais conservadoras ou fundamentalistas em apoio a esse governo genocida.

Não cheguei a viver explicitamente. A gente vive mais na operação interna das pastorais sociais, da organização das comunidades de base e então acaba tendo menos impacto que figuras com maior envergadura tem para esse trabalho. Penso que também tenho proteção na rede de comunidades onde estou, ela vem de um histórico de comunidades eclesiais de base, da memória de outras pessoas. Isso faz com que as lideranças locais sirvam de alguma forma de escudo de proteção para a gente. Então, não sofri agressões como o caso do padre Lino, no Ceará, do padre Edson, em São Paulo, ou do padre de Erechim que também foi perseguido.

 

 

 

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *